sábado, 30 de junho de 2007

Capítulo 4° - 28/08/1946

Finalmente consegui um tempo entre meu trabalho e... bem... o meu trabalho.

As coisas andam muito corridas ultimamente, não tenho tempo nem mesmo para me dedicar às coisas que mais gosto: Poesia e Alice – Não necessariamente nesta ordem.

Alice foi promovida para supervisora geral dos setores, muitos dizem que isso só aconteceu por causa da “afeição” que o diretor do jornal sente por ela. Claro, Alice é perfeita para esse cargo, pois é comunicativa, impõe respeito e é adorada por todos, mas não posso negar que os olhares furtivos desse crápula, tem elevado meu stress a níveis perigosos.

Semana passada, ele teve a coragem de chamá-la de “Li” enquanto puxava sua mão para levá-la ao escritório. Quem ele pensa que é para usar um apelido tão intimo e ainda ter a ousadia de tocá-la?!.

O que me deixa tranqüilo, é que sempre que ela passa pelo nosso departamento, nunca esquece de se dirigir a mim, com um grande sorriso, e dar um caloroso: Olá!

O Geraldo Costa é um grande amigo meu, sempre me deu muita força e tem uma certa desconfiança dos meus sentimentos pela Alice. Nunca contei a ele para não parecer patético. O que ele pensaria se eu dissesse que estou perdidamente apaixonado pela mulher mais cobiçado da impressa? Não digo que ele iria rir de mim, mas certamente diria para eu desistir. E desistir é algo que não pretendo fazer.

O mesmo Geraldo tem insistido em dizer que os meus textos estão cada vez mais melodramáticos ou poéticos, isso desde que a nossa querida Musa Inspiradora, subiu de cargo. Eu nego com veemência, dizendo que ele está muito cansado e precisa de férias.

Mas em certa parte, concordo com o que ele diz. Meus texto não perderam a qualidade, mas estão transparecendo que quem os escreve é alguém cujo amor não é correspondido. Será isso verdade?

As dúvidas dentro de mim explodem de uma tal maneira que temo perder o controle. Só espero que aquele Diretorzinho mantenha suas mãos longe dela, se não sou capaz de cometer uma loucura.

Bom, já está ficando tarde, melhor eu terminar por aqui.
Continuo assim que tiver um tempo livre.

Boa noite

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Capítulo 3° - 7/08/1946

É a minha primeira vez neste caderno. Sempre gostei de narrar ou escrever em forma poética a vida de outras pessoas, ou até mesmo personagens fictícias. Lembro-me de todas as noites de boemia que escrevia gostosamente me desligando dos problemas cotidianos. O cheiro a tabaco era muito forte, e as conversas das pessoas ao meu lado pareciam me dar uma inspiração maior para tais histórias.

Este era meu dia-a-dia, mas então comecei a trabalhar no jornal. “Casa de ferreiro, espeto de pau” é o que diz o ditado popular. Talvez por ser meu trabalho, perdi um pouco da vontade de escrever para mim mesmo. Continuei apenas escrevendo para os outros, sobre o que eles queriam e da forma que eles queriam. E, por meio desta experiência nova, um diário, venho narrar um pouco da minha vida e das minhas experiências para tentar reconquistar aquele costume que me aliviava os sentimentos em muitas ocasiões.

Hoje em dia eu poderia ser considerado um homem com costumes normais `a vista alheia. Para mim, nunca fui tão diferente na vida toda. Alice Matarazzo é o nome da diferença. Tão sedutora e tão simples ao mesmo tempo, faz-me confabular nas noites que parecem pequenas. Tão alegre, mas tão compenetrada, faz com que meu trabalho aparentemente renda muito menos. Tão excitante, mas tão comportada, deixa os homens caírem aos seus pés. Tão boa escritora e tão inteligente, que indago se ela não foi feita só para mim, ao meu molde, ao meu jeito, ao meu eu.

Alice Matarazzo, imigrante italiana que consegue conquistar corações apenas com papéis nos quais ela deixa o rastro de seu sentir, do seu saber e do seu poder. Seu poder sobre os vulneráveis homens que esperam todas as manhãs o jornal chegar para abri-lo objetivamente no texto de tão doce criatura que os conforta para mais um dia de trabalho ou que lhes dá um termômetro de como ela está se sentindo naquele dia, para quem sabe, fazer uma investida.

Ao contrário das outras que se encontram por aí, a aparência angelical não é fingida. É ingênua e pura. Não acredito que já tenha perdido a sua virgindade. Talvez isso torne-a diferentemente melhor do que qualquer outra.

Eu, poucas vezes tive a oportunidade de xavecar, mas, não sei o porquê, acho que o olhar dela é diferente para mim. Talvez seja só impressão, mas acho que nos entenderíamos, já que nosso passado é semelhante.

Continuo sonhando e me despeço com a esperança que eu retome meu vício saudável de escorrer palavras do tinteiro da caneta, uma coisa que parece insignificante, mas faz toda a diferença.