domingo, 26 de agosto de 2007

Cap 7 - 9/10/1946

Nunca tinha visto meu jardim tão lindo.
Com a imponência das flores e a beleza de Alice juntos, tudo em um êxtase de cores que se misturavam com o vermelho de seu vestido e com as mais diversas espécies de flores que eu cultivava.

Alice, ainda com um sorriso radiante, começou a andar em minha direção.


Eu tive vontade de paralisar aquele instante, pintar um quadro e exibi-lo na sala de estar, para que todos o invejassem e comentassem como era belo.

Então, subitamente, ela parou e fingiu estar interessada em uma borboleta que estava ali por perto. O que me obrigou a tomar a iniciativa de começar um dialogo.
Mas a simples menção de: O Que aconteceu?. Provocou uma reação inesperada.

Seu sorriso estonteante desapareceu... em seus lindos olhos claros uma sombra de rancor e infelicidade se instalou e pequenas gotinhas de sofrimento penduraram em suas pálpebras.

Vê-la ali, parada, tão bonita e tão assustadoramente ferida. Me deixou atordoado... o que fazer?
Mas foi só quando senti seus lábios quentes envolverem os meus, é que me dei conta que a tinha abraçado e me aproximado o suficiente para que ela entendesse as minhas intenções.
E em uma mistura salgada de lágrimas com calor excitante que nossos corpos exalavam, nos entregamos naquele beijo de uma forma que nem o mais sábio dos poetas poderia descrever.

Após o momento mais feliz da minha vida, Alice olhou para mim... estava corada e com um sorriso tremulo, e em seus olhos percebi que estava pronta para me contar o que tinha acontecido.

“Eu me demiti”- Disse ela olhando vagamente para os próprios pés.

Eu fiquei perplexo, a grande escritora que era amada por todos se demitiu?
Ela não me encarava, talvez porque tivesse medo que eu perguntasse o “Por que”, ou talvez porque fosse mais fácil observar a dureza do chão do que meu rosto em estado de choque.

Peguei em sua mão e a conduzi silenciosamente até um pequeno banco branco que ficava em frente ao jardim. Alice estava muda e eu sem saber o que dizer ou o que fazer, mas essa história não podia ficar assim... qual o motivo dela ter tomado uma decisão tão drástica?

domingo, 5 de agosto de 2007

Capítulo 6º

Mais uma vez passei a noite sonhando com Alice, isso de certo ângulo já se tornava incômodo, era impressionante como uma simples e afetiva mulher conseguira me conquistar desse jeito.
Às vezes penso que o motivo não possa ser outro se não o ar romântico do inverno francês a causar esse efeito nas pessoas. É difícil para alguns acreditar em amor, será possível que o que faz melhor para o ser também o que mais machuca?
Hoje em meio ao meu expediente cheio de texto à escrever vi Alice, ela parecia estar com pressa, e tenho a ligeira impressão de ter visto uma fina lágrima correr por seu rosto, mas talvez tenha sido o efeito da luz. Depois de um tempo não muito longo ela saiu apressada carregando alguns poucos abjetos consigo.

Perguntei a todos, aquela pergunta ficou me rondando o resto do meu expediente, o que teria acontecido, ninguém sabia e eu tentava por todas as vias descobrir o que poderia ter acontecido.

Fiquei a noite inteira me revirando na cama olhando de minuto em minuto o horário, dez minutos pareciam uma eternidade no estado em que eu estava. Aproveitando de minha insônia arrumei uma papelada que estava pendente no trabalho, e acabei adormecendo ali mesmo.

Acordei um pouco atordoado e cansado por não ter conseguido dormir direito, cheguei alguns minutos atrasado, e logo percebi que Alice não tinha chegado, achei estranho, mas é comum que as pessoas se atrasem de vez em quando. Foi difícil me concentrar nos meus textos esse dia, parece que sem Alice por perto eu perco minha inspiração ou pelo menos parte dela.

Cheguei em casa tarde pois tive muito trabalho, que se tornava ainda mais cansativo sem o sorriso irradiante de Alice. Logo que cheguei fui ao bar e peguei um whisky e sentei em minha poltrona ouvindo as belas e sonolentas canções da rádio. Acordei assustado, adormeci sem me dar conta, vi que meu copo tinha rolado pelo chão, ouvi batidas na porta e me dei conta que esse fora o motivo do meu susto. Abri a porta um pouco receoso afinal, quem bateria numa porta em plena madrugada, apesar de não saber o horário vi pela janela que o sol ainda não tinha nascido. Quando abri a porta a pessoa que tinha batido instantes atrás estava observando as flores, a cena tinha um toque mórbido com aquele ar noturno e o clima pesado que envolvia aquela situação. Chamei a pessoa que mexia em minhas flores, e logo vi que era Alice, estava com os olhos inchados e vermelhos, e desta vez não me restavam duvidas de que ela estivera chorando. Ela me olhou e fez menção de se virar e ir embora, mas parece que ela pensou duas vezes, ficou olhando para mim a beira das lágrimas como se esperasse uma reação, a convidei para entrar e tomar um café, ela aceitou e logo depois ofereci o quarto de visitas para que ela pudesse passar a noite tranqüilamente.

Assim que acordei me levantei, não me preocupei em chamá-la, pois era domingo e pelo estado que ela estava ontem precisava de repouso, não sabia o que esperar, não sabia se ela me contaria o que tinha acontecido. Fui até a padaria e comprei pães, deixei a mesa de café arrumada para quando ela acordasse e fui regar o jardim.

Aquele jardim era minha vida, nele que eu depositava minhas mágoas, felicidades e qualquer outra emoção que pudesse mexer comigo, era como seu eu falasse com as flores e elas respondessem. Não sei o porquê, mas muitas vezes o jardim me trazia paz, eu gostava de ver as árvores e flores crescendo, era como se fosse um milagre que tornava a vida mais bela.

Estava admirando uma borboleta que acabara de pousar em uma margarida, era incrível como tanta beleza pudesse ser colocada num ser tão pequeno, de repente Alice apareceu, foi estranho ela estava sorridente e extremamente irradiante, a beleza da borboleta até parecia ter se ofuscado, quando vi Alice em meio ao jardim sua beleza tinha aumentado exponencialmente, parecia que os dois tinham se tornado um e então, eu vi, o lugar de minha amada era exatamente ali, onde sua beleza se tornava imponente.