quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Cap 9º - 10/10/1946

A união de nossos corpos naquele abraço perspassou pela minha mente durante todo o dia, senti que havia acontecido uma troca de energias muito grande naquela hora, parecia uma comunhão de espíritos e corpos perfeita, foi uma sensação agradabilíssima, única, mas me produziu uma ponta de incômodo bem forte como se algo estivesse errado. A conclusão a que cheguei me deixou com a consciência pesada, tudo pela culpa que senti com sua confissão, fiquei pensando se com todos aqueles sonhos, poemas e poesias de amor tão secretamente escritos na calada da noite, não teria também lhe assediado, não fisicamente mas talvez mentalmente, me senti pior que um rato.
Apesar de me sentir culpado, logo me dei conta que o que fiz não passou de expressões de amor de um louco apaixonado, de inspiração que precisa ser colocado num papel, expressada por algumas palavras calorosas, o que não conseguia perdoar era essa pessoa, será que poderia ser considerada humana alguém que se deixa tomar por impulsos carnais, confesso que ao ver Alice passando apressada pelos corredores do jornal muitas vezes me vi tomado por impulsos ou idéias desse tipo, mas impossível tornar isso realidade, não por medo, mas por amor, admiração! Nunca imaginei como alguém poderia abusar de um ser tão puro.
No dia seguinte fui trabalhar, não sei como consegui escrever um texto, me senti num covil de víboras, cercado por cobras e ratos por todos os lados. Olhei para todos de rabo de olho como se esperasse um erro ou uma pista de quem poderia ter feito aquilo com minha preciosa Alice. Voltei mais cedo para casa, não conseguia mais ficar com aquele clima pesado sobre os ombros, ainda mais misturado com a vontade de reencontrar minha amada.

Ao chegar em casa me deparei com Alice a folhear antigos poemas por mim escritos, senti-me apavorado inicialmente, talvez medo por ela não gostar do que lia, talvez vergonha, ou pior, que ela tivesse encontrado aqueles meus poemas tão secretos sobre ela.

Quando me viu logo se levantou e me cumprimentou com um beijo apaixonado, e sorriu dizendo que eram os poemas mais belos já lidos por ela. Ao ver que aqueles não eram os poemas que tinha escrito sobre ela, me acalmei e me senti tão lisonjeado que fiquei enrubescido.

O resto do dia correu normalmente, ao anoitecer Alice disse que iria se deitar, estava cansada, perguntou se eu iria junto, logo respondi que em breve, queria ficar a refletir mais um pouco, acendi um cachimbo, e me coloquei a escrever um poema, não saberia dizer o que aconteceu mas não tive inspiração para escrever uma virgula. Bebi um copo de uísque e fui deitar.

Era cada dia pior ter que trabalhar no jornal parecia que a todo o momento alguém estava prestes a me atacar, consegui trabalhar com calma, apesar da angústia, ligava sempre pra casa com medo de que tivesse acontecido alguma coisa com Alice, era a primeira vez na vida que eu tinha responsabilidade, que tinha que cuidar de outra pessoa. Ao fim do expediente Geraldo me convidou para ir a um bar conversar. Não recusei, fazia tempo que não saia com Geraldo, liguei para Alice e disse que me atrasaria. Fomos ao bar que freqüentávamos, conversamos por horas, contei-lhe que estava junto de Alice, achei que não haveria problemas já que ele era um de meus melhores amigos, mas, quando falei, ele se levantou enraivecido e saiu. Simplesmente entrei em estado de choque, não sabia o que pensar, se tinha dito-lhe algo errado.

Voltei pra casa, Alice me esperava acordada, logo fomos dormir. A mesma pergunta que me fazia antes de dormir veio à tona, por que Alice veio para a minha casa? Continuei sem resposta como todas as outras noites, não sabia motivos, para mim de fato eles não existiam, nunca tinha falado com Alice o suficiente para ela ter esta confiança em mim.